segunda-feira, 13 de abril de 2026

MODESTO OFÍCIO


 




Luiz Martins da Silva

Dedicado a você

Ah! Este meu pequeno ofício,
Que de longe nem se emparelha
Às mais variadas virações de meu pai...
Pois, são só suspiros e saudades, ai...

Ainda nem registrado em cartório,
Embora seja mais que nascimento,
Casamento, crescimento de filhos,
Um leão por dia, com direito às suas crias.

Ah! Meus doces caseiros,
Como diria Coralina, à beira do rio.
Pelo menos ela, de cor os tinha.

Eu os divago, depois os disperso,
Logo, em versos, deles me despeço.
São seus, agora, aqui e em Pirapora.


DIA DAS CRIANÇAS

 









LUIZ MARTINS DA SILVA

Cadê a criança que estava aqui?
O gato comeu. E ninguém viu.
Cadê o gato? Foi pra balada,
Bailar com ela, outros babados.

Cadê a criança que estava aqui?
O lobo levou. E foram, tatuados,
Acampar numa selva de pedras,
Pedras rolantes, de rios de rock.

Eis que um dia a criança volta,
Sem gato, sem lobo, sem grilos,
Com aquele sorriso de engana pai.

E, então, você nem fala de insônias,
Só papo-cabeça de recontar sonhos,

Sonhos desses de se sonhar juntos.


MEUS LIVROS

 





LUIZ MARTINS DA SILVA






Meus primos congênitos,


Minhas leais companhias,


Agora, minha licença,


Para lhes agradecer tanta luz


A iluminar minha existência.

                                             
Para mim foram abrigos, portos,

Refúgios para os padecimentos de 

navegante.

Febres endêmicas em certas paragens da 

condição humana,

De se estar sempre a decifrar senhas e 


sendas,

seguindo a intuitiva fé no clarão que nos leva ao sonhado horizonte,

mas nevoeiro confundindo bem e mal num veludo indistinto.

Quantas travessias!

Mas quantos amigos!

A me servir de bússola,

Guia, farol, esperança.
Meus livros, dos quais

 mais dia menos dia

só me restarão patrimônio imaginário,
 
arca imensa de tesouro camuflado em fantasia.


Meus livros,

que lhes poderei prometer senão o fiel intento

de rogar para que lá estejam, também na biblioteca do sempre,

essa infindável sucessão de estantes de lembranças.
Entre corredores infinitos lá estarei vagando, silhueta míope,

ainda atrás d’A Grande Obra, a maior de todas as referências.


Quem sabe, nessas imaginárias andanças,

possa até me deparar com tantos ilustres caminhantes:

Machados, Borges, Pessoas, Florbelas, Cervantes…

E, finalmente, contemplar apaziguados entre os anjos,

Graciliano e Augusto redimindo meus temores de infância.








ANTIDEDICATÓRIA


 


LUIZ MARTINS DA SILVA


Há dias de perceber
Do quanto moídos fomos
Apenas areia no ralo.


Há dias em que, de fato
O que seria alimento
É só resíduo no prato.


Há dias sobrando pranto
Esses em que o girassol
É só o sol sem encanto.


Há dias de muitas sombras
Terríveis são as penumbras
De atmosferas netunas.


Há dias sem literatura
Em que o melhor estilo
É o coração trajando luto.


Há dias sem espetáculo
E todo o circo deserto
E a sua cara na vaia, palhaço.


Há dias em que o oceano
É só uma lágrima distante
Numa eternidade fria.


Há dias em que o sorriso
É só o eco de um vento
Inócuo, opaco, sem folhas.


Há dias de se re-voltar
Contra toda a sem-poesia
Que nos mantém numa bolha.


Há dias de se dizer: “Moço!
--E de se ouvir no fundo, do fundo...
--Sai desse troço!”.


sábado, 11 de abril de 2026

A CIDADE DE NÊUTRONS

 




Luiz Martins da Silva



Do alto de uma torre panorâmica, um homem

contempla a outrora conhecida cidade.

E tudo o que vislumbra além de prédios

são pungentes lembranças,

estas a que, normalmente, chamam de

passado.



De todas as prisões a mais solerte era

ter todas as portas escancaradas,

mas sequer um ruído, um alô...

era como se todos estivessem

numa redoma blindada.



Havia sinais de vida por todos os lados,

mas tudo seguia como

se tudo fosse indiferente e alheio.



Tinha, assim, todo o mundo à frente,

mas tudo estava distante

e silente.



Estava ali, ecce homo, grau zero de Humanidade.

mal acabando de nascer,

aos 46 anos de idade.



Era um estado de coma,

e, ao mesmo tempo, desperto?

Era a cidade, ainda linda, mas

deserta.

RECEITAS FLORAIS

 



Luiz MArtins da Silva

Alecrim do campo,

De hálito tão íntimo,

Sobeja em ósculo,

Rubor jovem, oculto.



Jenipapos se arrogam

Resistências de pejo,

Mas, lânguidos, caídos,

Exasperam desejos.



Lobeiras caídas,

Guardando o repouso,

Intumescem alcovas

De lobos cansados.



Floradas silvestres,

Se levadas ao faro,

Orientam deságios

De paixões magoadas.



Espatódeas ao cimo,

De cafre altivez,

Interrogam mandingas

De anular quebrantos.



À beira dos rios,

Os chorões se derramam,

Varrendo ao contrário

O que mal nos desejam.



Cozer nó de pinho

Em lama balsâmica

Restaura resinas

De mofinos amantes.



Entregar manjerico

É fetiche junino.

Alfazemas em feixes

É dinheiro em pencas.



E se o azar ainda for

Resistente ao fervor,

É melhor se banhar

De urtiga ao luar.

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